O Dilema dos Conselheiros e a Sombra da Autocracia

📷 The White House

“Donald Trump precisa de bajuladores mais inteligentes.” Esse é o título do artigo do colunista Ross Douthat, na edição de 7 de abril da Folha de S.Paulo. O autor parece sugerir que líderes precisam saber selecionar seus conselheiros ou, como define Douthat: “bajuladores”.

Historicamente, esse é um grande dilema ou um enigma difícil de decifrar. Faz-me lembrar a Esfinge da mitologia grega, que devorava todos os que não conseguissem decifrar seus enigmas. Ao abordar os transeuntes, ela dizia: “Decifra-me ou te devoro”.

Lideranças autocratas não costumam admitir ou tolerar serem contrariadas. Será que autocratas e totalitaristas desejam mesmo ter conselheiros inteligentes? Ou tudo o que buscam são caixas de ressonância e espelhos de suas próprias ideias e vaidades? A história tem nos mostrado que, para lideranças absolutistas, a lealdade cega costuma sobrepor-se à competência e conhecimento.

No exílio, Maquiavel confidenciou a um amigo sua preocupação com aqueles que compunham o conselho dos príncipes de Florença. Nicolau conhecia quase todos e manifestou sua apreensão: além do pouco conhecimento, tais conselheiros, para sobreviverem, tentavam massagear o ego do príncipe de acordo com o que sabiam que o líder gostaria de ouvir. Com esse modus operandi, beneficiavam-se de prestígios e regalias, porém os resultados eram, não raro, catastróficos ou contraproducentes.

Outro exemplo é o de Stalin. Sua visão da União Soviética retrata fielmente a definição de autocracia e obediência cega. Ou os liderados obedeciam fielmente, ou eram punidos em nome da disciplina stalinista. Mesmo em tempos de guerra, generais experientes e estrategistas eram obrigados a posicionar seus soldados e frotas exatamente como Stalin ordenava, ainda que a estratégia não fosse a ideal.

Havia comissários/fiscais no front de batalha para garantir que as ordens fossem cumpridas à risca. Quando venciam, a honra ia para o “brilhantismo” de Stalin; quando perdiam, a culpa era atribuída à má execução das ordens.

Há registros de heróis soviéticos executados por criticarem erros do regime, enquanto suas famílias eram enviadas a campos de concentração.

Os poucos êxitos de Stalin ocorreram quando ele se aliou a outros países e permitiu que especialistas comandassem as batalhas. Contudo, assim que recuperava a sensação de segurança, voltava a oprimir seu povo.

Vejamos um exemplo similar baseado no texto bíblico: Roboão decide seguir o conselho de seus amigos mais jovens, aparentemente porque isso acariciava seu ego:

“E teve o rei Roboão conselho com os anciãos que estiveram na presença de Salomão, seu pai, quando este ainda vivia, dizendo: Como aconselhais vós que se responda a este povo? E eles lhe falaram, dizendo: Se hoje fores servo deste povo, e o servires, e respondendo-lhe, lhe falares boas palavras, todos os dias serão teus servos. Porém ele deixou o conselho que os anciãos lhe tinham dado, e teve conselho com os jovens que haviam crescido com ele… E disse-lhes: Que aconselhais vós que respondamos a este povo…? E os jovens… lhe falaram, dizendo: Assim dirás a este povo… Meu dedo mínimo é mais grosso do que os lombos de meu pai. Assim que, se meu pai vos carregou de um jugo pesado, ainda eu aumentarei o vosso jugo; meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com escorpiões.” (1 Reis 12:6-11).

Este exemplo é tão emblemático que é citado no best-seller A Marcha da Insensatez, de Barbara Tuchman.

A história é cíclica. Que venhamos a aprender com os exemplos, bons e ruins. Não se trata de opinião, mas de fatos e acontecimentos. No final, os resultados de ações historicamente idênticas serão quase que precisamente iguais.

Por Carlos Macedo

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